A ansiedade, conhecida como o mal do século, não escolhe idade. No entanto, entre os idosos, ela pode manifestar-se de forma única e com agravantes específicos relacionados ao envelhecimento. Com o passar dos anos, fatores como perdas pessoais, limitações físicas, doenças crônicas e isolamento podem aumentar os níveis de angústia e ansiedade. Para entender melhor essas questões, o estoicismo e a psicanálise oferecem insights valiosos sobre a origem e o manejo da ansiedade nesta fase da vida.
A Ansiedade e o Estoicismo no Contexto do Envelhecer
O filósofo estoico Epicteto disse algo atemporal: “Não é o que nos acontece que nos afeta, mas sim o que dizemos a nós mesmos sobre o que nos acontece.” Este pensamento nos ajuda a compreender a base da ansiedade, especialmente os pensamentos intrusivos que afetam profundamente as emoções dos idosos. Esses pensamentos – involuntários, mas potentes – frequentemente intensificam o sofrimento emocional ao transformar suposições em “realidades” mentais distorcidas.
Por exemplo, um idoso que enfrenta uma limitação física tende a interpretar essa condição como um sinal de perda completa da independência, o que pode gerar um intenso estado de ansiedade. Segundo o estoicismo, o segredo está em diferenciar os fatos das interpretações , focando naquilo que está sob nosso controle. Aceitar o que não pode ser controlado é um exercício que oferece serenidade mesmo em tempos difíceis e se alinha a práticas terapêuticas modernas.
A Contribuição da Psicanálise Para a Ansiedade no Idoso
As contribuições da psicanálise também são cruciais para entender como a ansiedade se constrói na mente, especialmente nos mais velhos. A psicanálise analisa os aspectos inconscientes da ansiedade, explorando memórias reprimidas, experiências passadas e conflitos não resolvidos que podem ressurgir no envelhecimento.
Na prática clínica, a psicanálise ajuda o idoso a:
Identificar os gatilhos da ansiedade, muitas vezes enraizados em experiências antigas que o sujeito pode não ter consciência.
Trabalhar sentimentos de perda (de autonomia, entes queridos, ou papéis na sociedade) que se tornam mais frequentes após certa idade.
Reconfigurar a narrativa pessoal, promovendo uma compreensão mais profunda sobre si mesmo e elaborando um novo significado para os desafios desta etapa da vida.
A fala tem um papel crucial na psicanálise, pois ao verbalizar medos e angústias, o indivíduo pode simbolizá-los e diminuir sua carga emocional. Isso é especialmente relevante para idosos que, por vezes, carregam décadas de emoções não externalizadas.
Terapias Integrativas: Um Olhar Contemporâneo
Além da psicanálise, abordagens como a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) também são uma grande aliada no manejo da ansiedade. A TCC ensina o idoso a identificar e questionar padrões de pensamento disfuncionais que alimentam o ciclo ansioso. Por exemplo, um indivíduo pode aprender que sentimentos de inutilidade em razão da aposentadoria são uma interpretação errada, e não um fato.
Outros recursos complementares que oferecem excelente suporte incluem:
Terapias de grupo , que ampliam o senso de pertencimento e combatem o isolamento, um fator comum na ansiedade do idoso.
Técnicas de relaxamento , como meditação e mindfulness (atenção plena), que ajudam a diminuir a hiperatividade mental e a reconectar o idoso ao presente.
Terapias ocupacionais , que auxiliam na reconstrução de rotinas e na descoberta de novos sentidos de propósito.
A Filosofia na Prática: Lições para a Vida
O pensamento de Epicteto encontra eco na modernidade e, aplicado ao contexto clínico, inspira tanto o idoso quanto os profissionais de saúde a enxergar a ansiedade sob outra perspectiva. Ao entender que a vida não pode ser totalmente controlada – mas os pensamentos, sim –, cria-se um espaço para cultivar mais autonomia emocional e resistência às adversidades.
Embora a ansiedade seja um desafio comum no envelhecimento, ela é uma condição que pode ser compreendida e gerida com cuidado e estratégia. A fusão entre a sabedoria do estoicismo, a profundidade da psicanálise e ferramentas modernas como a TCC forma uma rede de suporte robusta para quem enfrenta os males da ansiedade. Buscar ajuda especializada, particularmente em terapias que valorizem o autoconhecimento e a interpretação consciente da realidade, pode transformar cenários de angústia em caminhos de renovação, resiliência e, acima de tudo, serenidade para uma etapa de vida tão rica em aprendizados.
Dr. Júlio Dutra, Advogado, Jornalista, escritor e Psicanalista, Rio de Janeiro, RJ; 15/01/26; 10:04 pm