Crise no IBGE expõe falta de diálogo e ameaça credibilidade, mas rigor técnico mantém reputação de pé

A crise interna vivida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) tem gerado apreensão não só entre técnicos e servidores, como também na sociedade, que teme pelos impactos na credibilidade de uma das instituições mais respeitadas no Brasil e no mundo. Desde o ano passado, tensões entre o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras do IBGE (ASSIBGE) e a presidência do Instituto se intensificam, destacando o desgaste na governança interna e a ausência de um diálogo efetivo entre as partes.

Um dos principais pontos de atrito é a criação da Fundação IBGE+, destinada à captação de recursos do setor privado para financiar algumas iniciativas do Instituto. Apesar das justificativas de sua atual presidência, liderada pelo economista Márcio Pochmann, a manobra é vista com ressalvas. Segundo a demógrafa e especialista Suzana Cavenaghi, em declaração à CNN, a prática contraria recomendações da Comissão Estatística das Nações Unidas (CSNU). “Uma das recomendações é não ter dinheiro carimbado de instituições privadas. Deve-se trabalhar com recursos públicos ou arranjos de convênios para assegurar a imparcialidade dos dados”, afirmou.

No entanto, o problema vai além do financiamento. Servidores têm destacado a falta de diálogo por parte da administração central, além do “derretimento” da assessoria da presidência, com trocas constantes e a perda de lideranças experientes.

Trabalho híbrido e desgaste no espírito de corpo

Outro agravante relatado dentro do IBGE é o impacto do modelo híbrido de trabalho, adotado por conta da pandemia e mantido em parte das atividades do órgão. Embora seja uma prática moderna e eficaz em situações pontuais, para uma instituição que depende de coesão interna e coordenação meticulosa, o novo modelo tem enfraquecido o “espírito de corpo”, essencial para a produção de estatísticas nacionais robustas. A desarticulação, por consequência, contribui para a dificuldade de promover um ambiente de colaboração e interação presencial entre os servidores, comprometendo as ações em equipe necessárias para o funcionamento do Instituto.

IBGE: um pilar técnico que resiste à turbulência

Mesmo em meio à instabilidade, é fundamental reforçar que os pilares técnicos do IBGE seguem intactos. Os processos metodológicos rigorosos, planejados de acordo com padrões científicos e orientações reconhecidas internacionalmente, continuam sendo cumpridos com excelência. Isso assegura que os resultados das pesquisas refletem a realidade brasileira de forma imparcial e precisa.

A credibilidade do IBGE, construída ao longo de décadas, é um ativo inigualável e reconhecido tanto nacional quanto internacionalmente. Garantindo a neutralidade dos dados, o Instituto se mantém acima de interesses político-partidários. “O IBGE é um órgão de Estado, com suas funções garantidas pela Constituição Federal, como na produção de estatísticas e no registro de dados geográficos e econômicos do Brasil (artigos 21, inciso XV, e 177). Não podemos admitir que questões administrativas prejudiquem esse legado”, afirmou o presidente da DAPIBGE, em recente manifestação.

Credibilidade ameaçada e o papel do informante

Um ponto levantado por Suzana Cavenaghi é o impacto da crise de credibilidade na relação entre o IBGE e seus principais “informantes” – os cidadãos, empresas e instituições que respondem às pesquisas conduzidas pelo órgão. Para a especialista, a falta de confiança no Instituto pode comprometer a qualidade das respostas fornecidas por esses públicos. “Se o informante não acredita que o dado do IBGE é confiável, ele pode decidir não participar das pesquisas ou até fornecer informações incorretas, o que reduz significativamente o valor da base de dados gerada”, alertou.

Este cenário reforça a importância de manter o IBGE como referência de isenção e qualidade técnica, mesmo em meio à deterioração das condições organizacionais.

Rumo ao diálogo: a solução para a crise

O desgaste na gestão e a intensificação das tensões internas apontam para uma necessidade urgente de diálogo entre servidores, dirigentes e entidades representativas. “Diálogo já!”, defende a DAPIBGE, ao ressaltar que a força do Instituto reside nos técnicos que ajudaram a construir sua reputação. Para os membros da associação, o cenário atual exige ajustes imediatos na administração do IBGE, sob o risco de maior fragmentação interna.

Por sua vez, em declarações recentes, Márcio Pochmann reconheceu as críticas, mas as considerou parte natural de uma gestão democrática. Em sua avaliação, o subfinanciamento do órgão justificaria as decisões tomadas até agora, como a criação de alternativas à escassez de recursos.

Ainda assim, para Cavenaghi, medidas urgentes são necessárias. Ela defende não só a reestruturação da direção do IBGE, mas também uma articulação mais próxima com o Congresso Nacional para assegurar o financiamento adequado e preservar as funções constitucionais da Instituição

O IBGE ocupa um papel insubstituível na organização política e econômica do Brasil, funcionando como pilar de formulação de políticas públicas. Apesar da crise administrativa, a robustez técnica e a tradição do órgão garantem que ele mantenha sua relevância e excelência. No entanto, o desgaste político e institucional não deve mais ser ignorado, e as vozes internas, incluindo as dos servidores e associações, clamam por soluções que privilegiem o diálogo e reforcem a autonomia do Instituto em relação a interesses de curto prazo.

Manter a credibilidade do IBGE como símbolo de confiabilidade para os brasileiros é compromisso de todos – servidores, gestores e sociedade.

Dr. Júlio Dutra; Advogado, Jornalista, Escritor e Presidente da DAPIBGE, Lisboa, Portugal, 06-02/26, 01:12 am
Fonte : CNN – Brasil; SP