Recentemente, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), responsável por produzir dados essenciais para a formulação de políticas públicas e análise econômica, tem enfrentado um ataque sistemático promovido por lideranças políticas e influenciadores alinhados à oposição. Entre eles está o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), apontado como herdeiro político do ex-presidente Jair Bolsonaro e pré-candidato à Presidência, que lidera críticas visando desacreditar os índices econômicos do órgão. Essa estratégia não só distorce dados oficiais, mas também compromete a confiança de uma instituição que há décadas fundamenta decisões estratégicas no país.
A ofensiva contra os números
As críticas se intensificaram após o IBGE divulgar índices econômicos que contradizem narrativas de crise econômica promovidas pela oposição, como a queda significativa no desemprego, a inflação dentro da meta e o PIB em crescimento. Flávio Bolsonaro, nas redes sociais, tem promovido desinformações, como o compartilhamento de gráficos enganosos que sugerem um recorde de falências em 2025. No entanto, investigações conduzidas por veículos como Aos Fatos identificaram que os dados divulgados misturam bases incompatíveis com a realidade, fabricando uma percepção falsa de colapso econômico.
Outra mentira amplamente disseminada sugere que o IBGE manipula os índices ao “excluir beneficiários do Bolsa Família do cálculo do desemprego”. Essa alegação, originada nos discursos de Jair Bolsonaro, foi desmentida, já que o benefício inclui, por definição, pessoas cuja renda está abaixo de R$ 218 per capita, independentemente de estarem empregadas. O IBGE, por sua vez, segue metodologias internacionalmente reconhecidas e jamais adotou ajustes para beneficiar governos, como reafirma o Sindicato Nacional dos Trabalhadores do IBGE (Assibge-SN): “Nunca houve denúncia de interferência técnica na metodologia ou nos resultados das pesquisas.”
Crise institucional e o papel do oportunismo político
Embora reconheça que há desafios internos, como o conflito entre servidores técnicos e a gestão do presidente Marcio Pochmann, a tentativa de usar essa crise como instrumento político para lançar dúvidas sobre a credibilidade da instituição agrava ainda mais a situação. Servidores denunciaram publicamente questões relacionadas à centralização de decisões e à politização da gestão, mas rejeitam insinuações de manipulação de dados estatísticos. A politização desse contexto, alimentada principalmente por apoiadores de uma agenda “anti-números”, coloca em risco o legado do IBGE como um farol técnico e apartidário.
Além disso, as críticas não se limitam à metodologia atual, mas também se estendem à criação de “índices alternativos”, sem qualquer fundamento técnico ou científico. Exemplos incluem influencers que baseiam suas análises em experiências pessoais, ignorando a abrangência e complexidade dos métodos empregados pelo IBGE.
Defender o IBGE é preservar fatos e planejamento estratégico
A tentativa de descredibilizar o IBGE não é uma simples discordância de números: é um ataque direto à capacidade de o Brasil medir e planejar seu futuro. Dados como o PIB, emprego e inflação embasam decisões governamentais, empresariais e sociais. Quando questionados de forma leviana, essas críticas geram desconfiança não apenas no mercado interno, mas também junto a investidores globais.
A Associação Nacional dos Aposentados e Pensionistas do IBGE (DAPIBGE) reitera que o enfraquecimento da credibilidade do instituto resulta em consequências irreparáveis para o país. A DAPIBGE lamenta a situação e enfatiza que a pátria precisa de uma posição unificada em defesa do órgão. Ainda que o IBGE enfrente desafios internos, isso não pode servir como justificativa para oportunismo político e amplo prejuízo à sua reputação.
Hora de agir: uma defesa nacional pelo IBGE
Diante das ameaças enfrentadas pelo instituto, cresce a expectativa de que o Governo Federal, responsável pela indicação de Marcio Pochmann, adote medidas firmes e públicas para resguardar a integridade do IBGE. Reforçar a transparência e a autonomia da instituição é primordial para impedir que desinformações e narrativas distorcidas se perpetuem.
A sociedade brasileira também tem um papel central nesse processo. É indispensável que movimentos civis, acadêmicos e outras entidades manifestem apoio público ao IBGE, reafirmando o compromisso com a importância de dados confiáveis para o desenvolvimento do país. Como bem apontado por comunicados do Sindicato da categoria, a confiança deve ser reconstruída com trabalho técnico sólido, mas também com mobilização.
Num momento em que a verdade está sob ataque, defender o IBGE é mais do que proteger uma instituição. É preservar o compromisso do Brasil com fatos, ciência e transparência. Afinal, sem números confiáveis, não há progresso possível.
Dr.Julio Dutra, Advogado, Jornalista, escritor, Psicanalista e Presidente da DAPIBGE, Lucerne, Suíça, 26/02-26.