A Gerontocracia Contestada: Autocuidado vs. Ativismo Disruptivo na DAPIBGE

Este artigo analisa a tensão entre o discurso do autocuidado na terceira idade e as práticas de alguns associados da Associação Nacional dos Aposentados e Pensionistas do IBGE (DAPIBGE) que, aparentemente motivados por frustrações, perturbam o ambiente de gestão da associação. Utilizaremos como ponto de partida o expressão “Depois dos 60, tem coisa que a gente não pode mais sacrificar por ninguém”, que prega a priorização da saúde física e mental, do tempo, do dinheiro, da paz de espírito e dos sonhos pessoais na terceira idade. A análise busca compreender este paradoxo, homenageando simultaneamente aqueles que priorizam o autocuidado e investigando as razões que levam outros a adotar comportamentos disruptivos.

O texto apresenta um manifesto de empoderamento gerontológico. A ênfase na saúde física e mental como prioridade absoluta reflete uma mudança de paradigma, onde o sacrifício individual em prol de outros, característica muitas vezes associada às gerações anteriores, é questionado. A valorização do tempo próprio, do uso consciente dos recursos financeiros e da busca pela paz de espírito configuram um novo modelo de existência, pautado pelo autocuidado e pela realização pessoal. A afirmação, “Depois dos 60, quem te ama de verdade vai entender: agora, é sobre você,” sintetiza este chamado à priorização do “eu”.

No entanto, a realidade da DAPIBGE demonstra a complexidade da transição para este novo paradigma. A existência de alguns associados que perturbam a gestão da associação, aparentemente movidos por frustrações, revela uma dissonância entre o discurso do autocuidado e as práticas efetivas. Estas ações podem ser interpretadas de várias maneiras: como expressão legítima de insatisfação com a administração; como estratégias para obter poder ou visibilidade; ou, ainda, como manifestação de resistência a mudanças e à própria ideia de priorizar o bem-estar individual.

É importante ressaltar que a análise não busca julgar ou desqualificar as motivações desses indivíduos. Reconhecemos a possibilidade de frustrações legítimas relacionadas à aposentadoria, à saúde ou a questões específicas da DAPIBGE. No entanto, é importante analisar o impacto dessas ações disruptivas no funcionamento da associação e na qualidade de vida dos seus membros. A energia dedicada a conflitos e práticas de comunicação rude poderia ser canalizada para a busca de soluções coletivas, a melhoria dos serviços e a defesa dos interesses dos aposentados e pensionistas.

Portanto, este artigo propõe uma reflexão sobre a dinâmica entre o autocuidado individual e o engajamento coletivo na terceira idade, tomando a DAPIBGE como estudo de caso. Homenageia aqueles associados que abraçam a filosofia do “Agora é sobre você,” reconhecendo a importância da priorização do bem-estar pessoal. Concomitantemente, busca compreender as motivações por trás das ações disruptivas, a fim de contribuir para um ambiente associativo mais saudável e produtivo, onde os interesses individuais e coletivos possam ser conciliados de forma mais efetiva. O desafio reside em equilibrar o direito à autopreservação com a participação responsável na vida associativa, construindo um espaço de diálogo e ação que promova o bem-estar de todos os membros.

Dr. Júlio Dutra advogado, Presidente do Dapibge, Rio de Janeiro 2025